Pesquisa da USP utiliza fios de cabelo para avaliar estresse de estudantes de pós-graduação
A análise capilar permitiu medir os níveis de estresse dos pós-graduandos a longo prazo | Imagem: Envato
Estudo quantificou nas amostras a presença do cortisol, um hormônio liberado quando o organismo responde à pressão
Cumprir prazos apertados, viver com bolsas insuficientes, sacrificar parte da vida pessoal e ainda enfrentar uma carreira incerta. A trajetória do pós‑graduando no Brasil, invariavelmente, leva ao desgaste da saúde mental. Vivendo essa realidade, a química Maria Eduarda de Souza Sacre resolveu transformar o desabafo coletivo em dados mensuráveis.
Na dissertação que defendeu no Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, ela recorreu à medição do cortisol, um hormônio liberado quando o organismo responde à pressão, por meio da análise de fios de cabelos.
“Medir o cortisol no sangue ou na saliva revela apenas variações momentâneas e sofre com oscilações diárias. Já o cabelo incorpora o hormônio conforme cresce, funcionando como um registro cronológico da exposição ao estresse”, esclarece a pesquisadora.

A pesquisa de Maria Eduarda de Souza Sacre conseguiu validar o impacto físico da pressão acadêmica sob alunos da pós-graduação no Brasil | Imagem: Arquivo Pessoal
Como a pesquisa foi desenvolvida?
Para viabilizar o estudo, Maria Eduarda começou testando o método com cabelos doados por uma empresa de cosméticos, chamada Katléia Lab. Essa etapa inicial permitiu ajustar os processos de lavagem, trituração e extração do hormônio, além de calibrar o equipamento analítico. O protocolo, tradicionalmente complexo, foi otimizado para usar apenas 5 mg de cabelo, moído manualmente com tesoura. Um dos avanços foi a redução no tempo de sonicação, técnica que utiliza ondas ultrassônicas para romper a estrutura do material e liberar as substâncias de interesse.
“Conseguimos reduzir de 16 para apenas 2 horas o tempo de sonicação necessário para extrair o cortisol, sem comprometer a eficiência”, destaca Maria Eduarda.
Com a metodologia validada segundo parâmetros da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a pesquisadora recrutou 38 pós-graduandos do IQSC e 20 voluntários externos (grupo controle). Todos responderam a um questionário baseado na Perceived Stress Scale, uma escala internacional amplamente utilizada para avaliar a percepção de estresse e sua relação com sintomas como ansiedade e depressão.
Depois, os participantes doaram uma mecha e foi utilizado até 3 cm de cabelo cortado próximo à raiz, o suficiente para obter um panorama dos últimos três meses de secreção de cortisol.
“Como o cabelo cresce cerca de 1 cm por mês, conseguimos um retrato biológico do estresse a longo prazo”, ressalta Maria Eduarda.
Avaliando os fios
A avaliação das amostras foi realizada no Laboratório de Bioanalítica, Microfabricação e Separações (BioMicS), coordenado pelos professores Emanuel Carrilho e Laís Brazaca. Os fios foram lavados, moídos e embebidos em solvente para extração do cortisol. A análise foi feita por Cromatografia Líquida Acoplada à Espectrometria de Massas (LC-MS), uma técnica de alta precisão considerada padrão-ouro na química analítica.
“Esse equipamento permite identificar moléculas em concentrações extremamente baixas, com alta seletividade e confiabilidade”, explica a pesquisadora.

A análise foi anonimizada e utilizou equipamentos de cromatografia do Instituto | Imagem: Arquivo Pessoal
Principais resultados
Os níveis de cortisol capilar dos pós-graduandos foram significativamente mais altos que os do grupo controle, indicando maior exposição ao estresse crônico. O questionário de percepção confirmou a sensação subjetiva de pressão, ou seja, a maioria relatou estresse elevado. Por outro lado, a correlação entre as respostas e o cortisol dos fios não foi linear.
“A percepção de estresse é subjetiva e momentânea enquanto as medidas de cortisol, refletem um estresse a longo prazo”, diz Maria Eduarda.

A banca de defesa contou com a presença da professora Ana Valéria Colnaghi Simionato, da Unicamp, do técnico de laboratório da Unesp, Eduardo Rossini, além do orientador, professor Emanuel Carrilho (à esquerda) | Imagem: Arquivo pessoal
Por que isso importa?
O trabalho de Maria Eduarda ilumina um problema que estatísticas recentes têm escancarado e o que um artigo da revista científica Nature nomeou como crise na ciência. De acordo com o texto, pesquisadores de todo o mundo e em todos os estágios da carreira estão sofrendo bullying, discriminação, ansiedade e depressão.
“A pesquisa oferece uma abordagem científica e clínica que complementa os estudos sociais já existentes, e reforça a necessidade de intervenções institucionais e de políticas públicas voltadas ao bem-estar do pesquisador brasileiro”, finaliza Maria Eduarda.
Reportagem: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica

