IQSC homenageia docentes que ajudaram a construir história da unidade
Reunindo quase cinco décadas de carreira, os professores Edson Ticianelli e Fernando Lanças foram reconhecidos pela consolidação da excelência científica do IQSC
Na última quarta-feira (29), o Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP) realizou uma solenidade em homenagem aos professores titulares Edson Antonio Ticianelli e Fernando Mauro Lanças, reconhecendo suas trajetórias acadêmicas e contribuições decisivas para o desenvolvimento da Unidade. O evento aconteceu no Auditório Professor Edson Rodrigues e reuniu docentes, pesquisadores, estudantes e autoridades acadêmicas.
Docentes do Instituto desde 1977, quando ingressaram na Unidade ainda denominada Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC), os homenageados tiveram papel fundamental na consolidação da excelência institucional, com destaque para suas atuações nas áreas de eletroquímica e cromatografia, além da formação de recursos humanos e participação na gestão, incluindo cargos de direção da Unidade.
A programação contou com a abertura conduzida pelo diretor do IQSC, Hamilton Varela, seguida por momentos de homenagem aos dois professores, com falas de colegas que destacaram as contribuições científicas dos docentes. Na sequência, os próprios homenageados compartilharam reflexões sobre suas carreiras, abordando experiências no ensino, na pesquisa e na extensão, além dos caminhos percorridos em suas áreas de atuação.
“É uma premiação da vida inteira – uma vida inteira de dedicação silenciosa ao ensino, à pesquisa, à cultura, à extensão e à gestão da Universidade de São Paulo. Para nós é uma grande data”, afirma o diretor do IQSC, Hamilton Varela.
Edson Ticianelli: da primeira turma do bacharelado à referência na eletroquímica
Natural de Bariri (SP), Edson Antonio Ticianelli construiu uma trajetória profundamente vinculada ao Instituto. Ele é integrante da primeira turma do bacharelado em Química do então Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC). Seguiu na pós-graduação no próprio Instituto e passou a atuar como docente ainda durante o mestrado, em 1977. Ao longo de quase 50 anos de carreira, consolidou-se como referência em eletroquímica, com pesquisas voltadas à conversão e ao armazenamento de energia, especialmente em células a combustível e no uso do hidrogênio como fonte sustentável.

Edson Ticianelli foi aluno da primeira turma do bacharelado em Química do Instituto, em 1973 | Foto: João Arenhart/IQSC
Para o professor, a homenagem representa o reconhecimento de uma vida dedicada à instituição: “São muitos anos de trabalho e convivência aqui no Instituto. Fico extremamente feliz por encerrar esse ciclo sendo reconhecido dessa forma”.
Edson Ticianelli também foi diretor do IQSC entre 2006 e 2010. Ao relembrar sua atuação, destaca o prestígio alcançado pelas pesquisas desenvolvidas no Instituto, especialmente pelo reconhecimento internacional, sem deixar de enfatizar o impacto da atuação em sala de aula.
“É gratificante ver as pesquisas que desenvolvemos aqui alcançando o reconhecimento internacional que buscamos. E, do ponto de vista didático, a relação com os alunos. Em 2023, fui patrono de uma turma do bacharelado em Química e, neste ano, ministrei a aula magna para os ingressantes do curso. Tudo isso marca a nossa trajetória”, avalia.
Dividindo as quase cinco décadas de atuação docente com o também homenageado Fernando Mauro Lanças, Edson ressalta que a homenagem ganha um significado ainda mais especial por essa trajetória compartilhada. “Entramos no mesmo ano na USP, em 1977, e convivemos ao longo de quase 50 anos. Sempre em perfeita harmonia, colaborando, sem qualquer rusga, o que é muito significativo em um ambiente tão competitivo”, destaca.
Fernando Lanças: formação plural e o pioneirismo na cromatografia
Para o professor Fernando Lanças, o sentimento é recíproco: “É uma honra muito grande dividir com o Edson essa homenagem, uma vez que ele foi um pesquisador brilhante no nosso Instituto e trouxe realmente coisas boas para o nosso dia a dia. É um prazer muito grande e uma honra estar com ele aqui”.

Fernando Lanças fundou o Grupo de Cromatografia do IQSC em 1984, após voltar do pós-doutorado nos Estados Unidos | Foto: João Arenhart/IQSC
Nascido em Rancharia (SP), Fernando Mauro Lanças iniciou sua carreira acadêmica no curso de Ciências Sociais, mas redirecionou seu caminho para as Ciências Físicas e Biológicas. Na sequência, graduou-se em Química e passou a atuar na docência, lecionando em cursinhos e escolas.
Em 1977, chegou ao então Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC) para cursar uma disciplina isolada e, em pouco tempo, foi convidado a integrar o corpo docente enquanto conciliava as pesquisas da pós-graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, receber a homenagem nesse momento marca tanto sua aposentadoria, como o início de uma nova fase: “Acabei firmando um contrato com a USP, no qual passarei a atuar como professor sênior, ou seja, continuarei no trabalho. Fico muito contente de que essa etapa tenha sido reconhecida pelo Instituto, onde eu trabalhei aproximadamente meio século”, explica.
O professor tem reconhecida atuação nas áreas de cromatografia e desenvolvimento de métodos analíticos, sendo pioneiro na introdução da cromatografia com fluido supercrítico (SFC) na América Latina. No IQSC, fundou o Grupo de Cromatografia (CROMA), onde desenvolve técnicas aplicadas à análise de fármacos, produtos naturais e contaminantes ambientais, com forte impacto científico e reconhecimento internacional. Atualmente, é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Química Analítica de Alimentos (INCT-Alim), sediado na Unidade.
Com cerca de 10 livros publicados e aproximadamente 140 mestres e doutores formados, Fernando Mauro Lanças diz que sua maior contribuição está nas conexões humanas construídas na academia. “Meu principal legado é ter formado pessoas altamente qualificadas e que hoje estão em diferentes espaços de trabalho. Já tenho até bisnetos científicos, que vão dar continuidade a essa atuação”, afirma.
O docente também atuou como vice-diretor do IQSC entre 2002 e 2006 e ressalta que a experiência na gestão ampliou sua compreensão sobre o papel da universidade. Para ele, essa vivência permite transformar demandas institucionais em ações concretas com impacto mais amplo: “A visão da administração é fundamental para captar as demandas e traduzi-las em iniciativas que realmente beneficiem a instituição e, depois, ao nosso universo maior, que é o nosso país.
Estudo e persistência
A atmosfera deixada pela solenidade desenhou caminhos para uma mensagem incentivadora às novas gerações. O diretor do IQSC, Hamilton Varela, destaca a importância de reconhecer e valorizar trajetórias ainda em vida: “Aqui, a mensagem que fica é que temos que homenagear em vida, se espelhar e dizer realmente: ‘Nossa, eu queria ser como esse cara!’. Ao invés de procurar no exterior, a gente tem exemplos em casa de pessoas como eles, que deveriam servir como espelho para a carreira”.

Edson Ticianelli e Hamilton Varella, diretor do IQSC | Foto: João Arenhart/IQSC
Edson Ticianelli relembra que, desde a época escolar, sua vida foi marcada por desafios que demonstram a importância do aprendizado contínuo. Por isso, reforça: “A palavra-chave, em todas as fases, é estudar. Quer seja como aluno ou como professor, a gente vive aprendendo”, incentiva.
Já para Fernando Mauro Lanças, a base está na persistência, sempre aliada à paixão pelo que se escolhe fazer: “É como um músico: se gosta do que ele faz, percebe-se imediatamente quando está se apresentando. Agora, aqueles que realmente gostam do que fazem, o público estoura junto e fica um negócio legal. O pesquisador e professor deve também ser assim. Tem que ter paixão pelo que faz”.
Matéria: Raquel Sampaio, da Fontes Comunicação Científica

