Conheça a trajetória de Luís Lombongo, primeiro pesquisador do Acordo USP-Angola a concluir o mestrado no IQSC
Docente universitário em seu país, Luís desenvolveu uma membrana à base de biopolímeros com potencial aplicação na cicatrização de ferimentos
Em 2024, Luís Paciência Lombongo deixou a cidade de Huambo, em Angola, para iniciar uma nova etapa de sua formação acadêmica. O pesquisador cruzou o Oceano Atlântico rumo ao Brasil, mais precisamente ao Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP. Em 2026, tornou-se o primeiro angolano a concluir o mestrado no Instituto, por meio do acordo entre a Universidade de São Paulo e o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação de Angola. A defesa, realizada em 8 de setembro, marcou não apenas a aprovação de sua dissertação na área de biopolímeros, como também exemplificou como a cooperação internacional pode contribuir para a formação de pesquisadores.
Da sala de aula em Angola ao ensino superior
A trilha formativa de Luís começa antes mesmo da universidade, quando se formou no ensino médio com ênfase em ciências exatas, o que em Angola se configura como uma espécie de curso pré-universitário. A formação lhe permitiu atuar como professor de Matemática e Física para níveis equivalentes aos anos finais do ensino fundamental brasileiro, ocupação que desempenhou por cerca de quatro anos. Após esse período, decidiu prestar processos seletivos para universidades de sua região. A princípio, se inscreveu para os cursos de Física, Matemática, Engenharia Eletrônica e Telecomunicações e Economia, com foco em contabilidade.

Momentos de apresentação e comemoração do Trabalho de Conclusão de Curso, no Instituto de Ciência da Educação do Huambo (ISCED-Huambo) | Fotos: Arquivo pessoal
Aprovado em Física e Economia, Luís se viu em um impasse, mas baseado em suas aptidões e experiências, decidiu pelas ciências exatas: “Como eu tinha paixão por dispositivos eletrônicos e pelas habilidades que eu já trazia do ensino, decidi fazer Física no Instituto Superior de Ciências de Educação do Huambo. Em 2015, terminei a minha Licenciatura”.
No ano seguinte, começou a atuar como colaborador em disciplinas do Instituto Politécnico da Universidade José Eduardo dos Santos, em Huambo, sob a supervisão de um professor efetivo. Aprovado em um concurso, foi admitido como docente em tempo integral da universidade, ingressando na primeira categoria da carreira docente em Angola, como professor assistente estagiário. Nessa função, Luís leciona disciplinas de Física para sete dos nove cursos da instituição.
A oportunidade de vir ao Brasil
Em 2023, Luís soube do Acordo USP–Angola, que prevê bolsas para a formação de docentes e pesquisadores angolanos em programas de pós-graduação da universidade. Na segunda etapa da seleção, precisou apresentar um projeto de pesquisa que, inicialmente, tinha como tema a divulgação científica na área de nanotecnologia. “Quando o projeto foi aprovado, precisei contactar os professores orientadores que poderiam auxiliar na execução. E o meu projeto calhou de se encaixar no Instituto de Química de São Carlos, sobretudo com a professora Carla Cavalheiro”, conta.
Para a docente do IQSC, receber um estudante estrangeiro também representava uma oportunidade de troca acadêmica. “Eu já havia orientado alguns alunos da Argentina, por exemplo. É sempre uma boa oportunidade. Vem alguém que quer melhorar as suas condições no nosso laboratório. Isso é muito interessante”, avalia.

A banca examinadora contou com a professora Carla Cristina Schmitt Cavalheiro, do IQSC/USP, e os professores Marcio José Tiera, do IBILCE/UNESP, e Marcelo Aparecido Chinelatto, da EESC/USP | Foto: Arquivo pessoal
Concluídos os processos administrativos que permitiam a vinda de Luís ao IQSC, foi iniciada a etapa de adequação de seu projeto às pesquisas do Grupo de Biopolímeros e Fotoquímica do IQSC, coordenado por Carla. “Tivemos que fazer uma remodelagem do projeto, uma vez que o anterior visava divulgação de nanotecnologia nos cursos que eu lecionava. Então surgiu a necessidade de poder fazer algo mais específico. Pensamos: por que não desenvolver um material capaz de dar um suporte à área da saúde?”, conta o pesquisador.
Luís passou a integrar uma linha de pesquisa do laboratório dedicada ao desenvolvimento de membranas para diferentes tipos de ferimentos. Embora já existam opções comerciais para essa finalidade, o trabalho buscou explorar o potencial de biopolímeros e de materiais já investigados pelo grupo.
Pesquisa com foco em membranas
Intitulada Membranas híbridas de quitosana comercial e quitosana base de Schiff contendo óxido de zinco (ZnO) e laponita: desenvolvimento e caracterização, a dissertação resultou no desenvolvimento de um material com potencial para auxiliar no processo de cicatrização. “Os curativos tradicionais ainda oferecem algumas limitações, que têm a ver tanto com a eficácia como com os custos hospitalares. A nossa proposta foi criar um material com melhor desempenho, congregando três elementos com propriedades diferentes”, explica.
O material tem a quitosana como base, um biopolímero encontrado no exoesqueleto de crustáceos e insetos, à qual foram incorporadas nanocargas de óxido de zinco (ZnO) e laponita. A combinação deu origem ao nanocompósito que constitui a membrana estudada por Luís. “O material pode ser colocado sobre a ferida, proporcionando a aceleração da cicatrização”, explica.
Segundo a orientadora, o aprendizado de novas técnicas no laboratório poderá ser aplicado em futuros trabalhos. “Ele aprendeu muito sobre técnicas que não tinha conhecimento. Algumas ele poderá aplicar na Angola, aqui foi um start”, afirma.

Luís durante as atividades do acadêmicas realizadas no IQSC por meio do Acordo USP-Angola em 2026 | Foto: Arquivo pessoal
Uma nova rotina, longe de casa
A vinda ao Brasil também marcou a primeira viagem internacional de Luís. Logo após chegar, ainda no trajeto entre o aeroporto e a rodoviária de São Paulo, o movimento intenso de pessoas chamou sua atenção. O cenário mudou quando chegou a São Carlos. “Gostei muito da tranquilidade, principalmente dentro do campus. É um ambiente favorável ao desenvolvimento das atividades de pesquisa”, conta.

O movimento da capital paulista trouxe estranhamento ao angolano ainda no terminal rodoviário do Tietê | Foto: Arquivo pessoal
Embora o português também seja a língua oficial de Angola, o pesquisador conta que as diferenças de vocabulário e, sobretudo, o ritmo da fala dos brasileiros estiveram entre os desafios enfrentados nos primeiros meses no país. Com o tempo e a convivência, porém, essas singularidades se tornaram mais naturais. “Há um provérbio que diz: quem corre por gosto não se cansa”, acrescenta, bem-humorado.
Outro desafio foi a adaptação às exigências da pós-graduação. Para acompanhar o ritmo de estudos e pesquisa, Luís precisou intensificar a rotina e dedicar mais tempo às atividades no laboratório. “Eu precisei ser mais dinâmico e me dediquei aos estudos todos os dias. Entrava às 8h no laboratório e só saía às 21h, muitas vezes às 22h”, relata.

Coordenado pelas professoras Carla Cavalheiro e Bianca Maniglia, o Grupo de Pesquisa em Biopolímeros e Fotoquímica integra o conjunto de 17 grupos de pesquisa do IQSC | Foto: Arquivo pessoal
Nesse processo, o acolhimento encontrado no IQSC também contribuiu para a adaptação. Luís destaca que a interação com as pessoas e a estrutura do IQSC auxiliaram no processo. “A recepção, tanto por parte da professora como por parte do pessoal do Instituto, foi de forma calorosa e atenciosa. Além disso, as ferramentas, como as bibliotecas, e a própria interação com os colegas fizeram com que eu minimizasse as dificuldades ou mesmo as barreiras que poderia encontrar”, conta.

Luís com a comunidade angolana e alguns amigos brasileiros em São Carlos | Foto: Arquivo pessoal
No âmbito pessoal, uma das dificuldades desse período foi estar longe da família. Casado e pai de duas meninas, Luís precisou conciliar a rotina de estudos e pesquisa com a saudade de casa. A experiência, porém, era compartilhada com outros pesquisadores angolanos que também haviam deixado o país para estudar no IQSC. “Quando nos reunimos, tínhamos as nossas risadas, as nossas conversas. Em frente ao restaurante, tinha um sítio que nós apelidamos de ‘Madeirinha’. Após o almoço, era ali que nos encontrávamos para conversar. A interação foi muito boa e construímos, de certa forma, uma família”, relembra o pesquisador.
A defesa do mestrado
Durante o mestrado, Luís precisou retornar temporariamente a Angola para assumir suas funções como professor. Com menos tempo para concluir os experimentos e finalizar a dissertação, a preparação para a defesa foi marcada por uma rotina ainda mais intensa. A tensão, no entanto, deu lugar ao sentimento de realização após a aprovação. “A formação representou um ganho imensurável. Eu não tinha dimensão de como seria desenvolver esse trabalho. Agora consigo perceber que trouxe uma contribuição fundamental na área de pesquisa”, afirma.

Amigos prestigiaram a defesa do pesquisador no Anfiteatro Professor Robert Ange Marie Camille De Groote, no IQSC | Foto: Arquivo pessoal
Para Carla, a dedicação do pesquisador foi fundamental para que, mesmo diante das dificuldades, o trabalho fosse concluído dentro do cronograma. “Mesmo com os percalços, a gente conseguiu terminar dentro do prazo, o Luís foi muito dedicado”, diz.
Conhecimento além das fronteiras
A experiência bem-sucedida de Luís também evidencia o papel da internacionalização na formação de pesquisadores e na construção da ciência de forma colaborativa. “O Instituto ganha por abrir essa oportunidade. Não basta só adquirir conhecimento, precisamos ser agentes formadores, temos que contribuir para uma sociedade um pouco mais igualitária. Por isso, acredito que essa iniciativa possa ser estendida. A gente tem um vínculo muito legal, que é a língua, e isso é bastante interessante”, afirma Carla Cavalheiro.

O principal objetivo é ampliar a formação dos pesquisadores para que, ao retornarem a Angola, eles possam contribuir para o avanço científico no país”, destaca a professora Carla Cavalheiro | Foto: Arquivo pessoal
Luís já tem data marcada para retornar a Angola e retomar suas atividades como docente. Porém, a volta será acompanhada de conhecimentos que ultrapassam aqueles adquiridos especificamente durante a pesquisa. “Saio com uma bagagem que vou poder partilhar com os meus estudantes. Tanto do ponto de vista técnico quanto pedagógico, saio daqui muito enriquecido”, conta.
A vivência no IQSC ampliou seu interesse em desenvolver pesquisas voltadas às necessidades de Angola e em manter a colaboração construída durante o período no Brasil. “O meu país precisa de mais pesquisas voltadas à área da saúde. Então, eu gostaria de voltar para poder contribuir ainda mais”, conclui.
Matéria: Raquel Sampaio, da Fontes Comunicação Científica

