Startup nascida no IQSC conquista prêmio que reconhece iniciativas de empreendedorismo na USP
A MVBio, deeptech criada a partir de pesquisas em organ-on-a-chip, ficou em primeiro lugar do Santander X Brazil Award 2025
Desenvolver plataformas que simulam o funcionamento do corpo humano em laboratório, permitindo a geração de dados mais precisos para pesquisas e aplicações na área da saúde: esse é o objetivo da MVBio, startup deeptech nascida no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP). Criada durante o doutorado de uma de suas fundadoras, a empresa foi recentemente selecionada entre as cinco startups finalistas do Santander X Brazil Award. O prêmio é concedido durante Semana Global do Empreendedorismo da USP, uma das principais iniciativas de reconhecimento ao trabalho de alunos(as) e ex-alunos(as) empreendedores vinculados à Universidade, que foi realizada de 17 a 19 de novembro, na Inova USP, em São Paulo (SP).
Ciência e empreendedorismo lado a lado
A MVBio foi fundada por Giovanna Cupertino e Amanda Maciel Lima, a partir da convergência entre ciência de ponta desenvolvida no IQSC e uma visão voltada à aplicação prática do conhecimento acadêmico. Giovanna, a diretora executiva, é responsável pela frente de negócios da startup, atuando na construção de parcerias, no relacionamento com investidores, no desenvolvimento do modelo de negócios e na gestão administrativa.
Com formação inicial em biotecnologia, Giovanna explica que sempre teve o desejo de atuar na interface entre ciência e mercado. “Tenho um background em biotecnologia, cheguei a estudar a área por três anos, mas depois enveredei para o mundo dos negócios. Sempre tive a intenção de ser a parte de negócios de um empreendimento em biotecnologia, porque acredito muito no poder dessa área”, afirma.

Amanda Lima, diretora científica da MVBio (à esquerda) e Giovana Cupertino, diretora executiva (à direita) | Foto: Arquivo pessoal
Já a diretora científica, Amanda Lima, é pesquisadora e doutora pelo IQSC-USP, com atuação nas áreas de microfabricação e biologia celular. Sua trajetória acadêmica é marcada pelo desenvolvimento de microdispositivos e de modelos avançados de cultura celular. Foi durante seu doutorado que a MVBio começou a tomar forma.
Como tudo começou
A startup nasceu no Laboratório BioMicS — Bioanalítica, Microfabricação e Separações — do IQSC/USP, liderado pelo professor Emanuel Carrilho e pela professora Laís Canniatti Brazaca, no qual Amanda desenvolveu sua pesquisa e teve contato com a tecnologia de organ-on-a-chip – sistemas que reproduzem, em escala reduzida, funções e condições fisiológicas de órgãos humanos, permitindo estudos mais precisos de processos biológicos e testes de fármacos em laboratório.
“No laboratório, conseguimos reproduzir o funcionamento de um órgão humano de forma muito mais fiel do que os testes tradicionais e até do que modelos animais, permitindo avaliar e prever a resposta de fármacos em humanos antes mesmo dos testes clínicos”, explica Giovana.
O posicionamento estratégico da tecnologia desenvolvida pela MVBio está fundamentado na acessibilidade econômica, na simplicidade operacional e na capacidade de gerar valor científico mensurável.
Em seu doutorado, Amanda Lima, a diretora científica da MVBio, desenvolveu um modelo funcional de intestine-on-a-chip, capaz de reproduzir características essenciais do ambiente intestinal humano. O dispositivo apresentou resultados expressivos, como a redução significativa do tempo de cultura celular, mantendo desempenho comparável ao modelo padrão-ouro utilizado pela indústria farmacêutica em ensaios de permeabilidade de fármacos. A partir desses avanços, o que teve início como um projeto acadêmico passou a se consolidar como uma oportunidade concreta de aplicação no setor produtivo, dando origem à MVBio.

Amanda apresentando sua pesquisa desenvolvida no doutorado, no qual desenvolveu um modelo funcional de intestine-on-a-chip | Foto: Arquivo pessoal
Amanda Lima destaca que o ambiente e o suporte acadêmico do IQSC foram decisivos para essa transição da pesquisa para o empreendedorismo, tanto do ponto de vista científico quanto estrutural. “Nesse ambiente, sobretudo com o professor Carrilho, ela encontrou muita motivação e inspiração para começar a sair do acadêmico e transformar aquilo num negócio. A motivação inicial veio desse contexto em que ela estava inserida. Hoje em dia, é também a infraestrutura que a gente tem ali, algo que precisaríamos de muito investimento para reproduzir em outro lugar”, afirma.
Reconhecimento
A MVBio se consagrou como vencedora na categoria de ampla concorrência do do Santander X Brazil Award, iniciativa voltada ao reconhecimento de alunos e ex-alunos da Universidade de São Paulo que estão em processo de desenvolvimento de empresas emergentes. A premiação destaca negócios com produtos ou serviços inovadores, modelos economicamente sustentáveis e escaláveis, além de alinhamento a pelo menos um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

A iniciativa reconhece empresas emergentes que unem inovação a modelos de negócio sustentáveis, com potencial de crescimento e impacto em larga escala | Foto: Arquivo pessoal
A competição tem como objetivos valorizar equipes que adotam práticas criativas e inovadoras, ampliar a visibilidade da educação empreendedora no ambiente universitário e fortalecer o ecossistema de inovação da USP. Além disso, busca promover a interação entre docentes, discentes e a sociedade, criando oportunidades de networking, reconhecimento institucional e abertura para o crescimento dos negócios participantes.
Para Giovanna Cupertino, a indicação como finalista e a vitória representam uma validação importante do trabalho desenvolvido. “Ser uma das cinco finalistas é como receber um ‘acreditamos em vocês’. É algo que a gente se questiona muito: se estamos resolvendo um problema de hoje ou algo que só fará sentido daqui a dez anos. Esse reconhecimento mostra que as pessoas estão olhando para isso agora, que há interesse e que vale a pena continuar”, afirma.
A diretora executiva da MVBio também destaca que o próprio processo de participação na premiação foi um momento relevante de amadurecimento da startup. “O que mais chamou a atenção nessa jornada foi preencher o formulário com informações sobre a empresa. Sempre que fazemos esse tipo de exercício, é uma oportunidade importante de refletir sobre o nosso negócio, o modelo, o problema que queremos resolver e a solução que propomos. Parar para olhar com atenção e avaliar se tudo faz sentido é algo muito valioso”, completa.
Olhar para o futuro
Atualmente, a MVBio ainda se encontra em fase de desenvolvimento de sua plataforma tecnológica. Embora o produto não esteja, por enquanto, disponível para aplicação direta, a proposta central da startup é utilizar a tecnologia de organ-on-a-chip para possibilitar o screening e o estudo de biomoléculas. A abordagem abre caminho para avanços na área de medicina personalizada, além de oferecer múltiplas possibilidades de uso em pesquisa científica.

Interface do site da MVBio | Imagem: Reprodução
Para Giovanna Cupertino, os próximos passos após o reconhecimento no Santander X Brazil Award envolvem ampliar a visibilidade da startup e avançar na consolidação do produto. “O foco agora é fazer uma plataforma de ponta e ser a primeira startup a fazer isso aqui no Brasil. Colocar o Brasil em um lugar competitivo no mundo”, afirma.
A cofundadora destaca ainda a importância da construção de parcerias estratégicas para a validação e expansão da tecnologia. “Buscamos parceiros que possam validar a plataforma em contextos reais de pesquisa e desenvolvimento e, a partir disso, evoluir a tecnologia para novas aplicações, tecidos e necessidades da indústria”, conclui.
Matéria: Raquel Sampaio, da Fontes Comunicação Científica

